09
Nov
Uma das histórias que mais me chamou a atenção ultimamente foi todo o bafafa por trás do vestidinho da Unibam. O fato já repercutiu com tanta força que muitos já se cansaram do assunto, ou acharam que a mídia deu atenção demais para algo sem importância. Eu sei bem por que a imprensa comprou o assunto. Jornalistas são os primeiros a reclamar de qualquer ameaça a liberdade.
Meu primeiro namorado era jornalista. Chamava-se João Xavier. Me ensinou muitas coisas, como ter auto-confiança, as dificuldades que enfrentamos para realizar sonhos e a importância inestimável de um ser vivo. Ele nunca tinha medo de brigar pelo que acreditava. Sua verdade incomodava as vezes, mas doía por que era sempre sincera. As verdades por trás das aparências ficavam mais nítidas quando enxergávamos com seus olhos.
Os valores que tantas pessoas sucumbem não o seduzia. Ele não queria dinheiro, sucesso, fama e glamour. Ele queria ser livre para tomar decisões que outros condenam. E assim o fez.
Eu, como tantos outros gays, cresci acreditando que tinha algo de errado em mim. Não é nada saudável começar a carregar um peso tão inadequado quando estamos descobrindo quem nós somos. Quando comecei a ter minha vida mais adulta, conquistando aos poucos minha independência financeira, tinha medo de continuar sempre a sombra de um modo de vida que não seria o meu. O medo me congelava. E eu me perguntava se um dia teria forças pra viver de outra forma.
Foi num dia banal que eu percebi o poder que uma postura tem quando é firme e defendida. Graças ao João eu tive coragem de brigar por um direito que os dois tinham. Não era proibido e não estávamos pedindo permissão. Sem querer foi a forma mais discreta que encontrei de assumir para o resto da minha família e colegas de trabalho. Do dia para a noite todos sabiam, como em um sonho. Decidimos na época não mostrar o rosto, éramos muito novos e a história em si era importante, não os autores.
Nunca registrei nada sobre o ocorrido. Foi um dos momentos mais conturbados da minha vida e como estou em uma fase de revirar gavetas antigas, acho justo não só a homenagem, mas também oficializar meu ponto de vista. Eu me orgulho de ter acompanhado o João nesse episódio e gostaria muito que ele pudesse ver quantos casais do mesmo sexo se beijam livremente no lugar hoje em dia. Se não sabe muito bem do que estou falando, segue um dos textos que mais gosto, publicados na época:
‘Beijaço gay’ em shopping paulista - 1/8/2003
O Globo O PAÍS SÃO PAULO.
O bairro de classe média da Bela Vista, famoso por abrigar a maior parte da colônia italiana de São Paulo, assistirá domingo a uma versão pocket do Dia do Orgulho Gay, que levou 800 mil pessoas à Avenida Paulista, em junho. O clima, desta vez, será exclusivamente de protesto contra a discriminação. A acusação pesa contra os seguranças e a administração do Shopping Frei Caneca, que teriam discriminado o jornalista João Xavier, de 25 anos, e o publicitário Rodrigo Rocha, de 21, que se beijaram na boca no local. Na noite de 6 de julho passado, os dois se encontraram no saguão de entrada do shopping, e, no meio de um beijo, foram apartados por um segurança. O caso foi parar na polícia, na Secretaria estadual de Justiça e Defesa da Cidadania. Agora, associações de defesa dos homossexuais marcaram um “beijaço” coletivo na praça de alimentação do shopping, às 17h de domingo. Vários casais gays prometem repetir o gesto de Rocha e Xavier. Segundo o boletim de ocorrência no 4 Distrito Policial (Consolação), Xavier esperava Rocha para ir ao cinema e, quando seu par chegou, a saudação foi um abraço e um “beijo selinho”. Quando os dois caminhavam para o cinema, foram interrompidos pelo segurança, identificado no registro policial como Moisés de Oliveira. O funcionário limitou-se a informar que não eram aceitos beijos, abraços e carinhos entre homossexuais. — Quando perguntei se beijo entre homem e mulher era permitido, ele respondeu: ‘aí é diferente’. Então mandei chamar o chefe da segurança, que veio e repetiu a regra. Mais homens do departamento apareceram e nos cercaram. Chamei a polícia — disse o jornalista. O segurança confirmou a história na delegacia, acrescentando ter contado dois beijos. Sua justificativa foi o fato de o lugar ser freqüentado por idosos e crianças. Em nota oficial, o superintendente do Shopping Frei Caneca, Wilson Pelizaro, informou que, “em todos os casos que envolvam excessos, cometidos por qualquer pessoa, os seguranças estão instruídos a abordar os envolvidos e informar que o comportamento não é adequado para o local, solicitando a interrupção”. Segundo Pelizaro, não há uma operação específica para o público GLS (gays, lésbicas e simpatizantes). O problema é que o carinho público é garantido pela legislação. A lei 10.948, sancionada em novembro de 2001, permite a expressão e manifestação de afetividade e o artigo 1 prevê punição para toda discriminação contra homossexuais e bissexuais. Para Lula Ramires, presidente do Grupo Cidadania, Orgulho, Respeito, Solidariedade e Amor (Corsa), o “beijaço” é a maneira de fazer os estabelecimentos comerciais darem tratamento digno ao público gay. — Vamos mostrar que somos cidadãos. Se casais heterossexuais se beijam em público, nós também podemos. A lei que condena a discriminação tem de ser cumprida.
E justiça foi feita.





